Por Luiz Signor
Maior atleta paraolímpico da História do Brasil, Clodoaldo Francisco da Silva Correa, conhecido internacionalmente como Clodoaldo Silva, nasceu em Natal (RN) no dia 1 de fevereiro de 1979. Portador de deficiência cerebral, o que causou a má formação de seus memros inferiores. Clodoaldo conheceu a natação como processo de reabilitação no ano de 1996, em Natal. Em 1998, participou de seu primeiro campeonato brasileiro, quando ganhou três medalhas de ouro. Desde então colecionou medalhas, recordes e reconhecimento tanto no esporte paraolímpico, quanto no olímpico.
Em 2000, nas Olimpíadas de Sidney, Clodoaldo ganhou três medalhas de prata e uma de bronze. Em 2002, no Mundial da Argentina, o nadador bateu três recordes mundiais: nos 50m, 100m e 200m estilo livre. Já nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, Clodoaldo atingiu o ápice de sua carreira, quando conquistou seis medalhas de ouro e recebeu o apelido de ' Tubarão das piscinas'.
Em 2005 e 2006, Clodoaldo continuou a bater recordes e a ganhar medalhas nas competições que veio a disputar. Como prova do seu alto rendimento e de suas conquistas, em 2005 o atleta foi condecorado com o prêmio de melhor atleta paraolímpico do mundo, pelo Comitê Internacional Paraolímpico.
Nas Olimpíadas de 2008, realizadas em Pequim, veio a grande frustração da sua carreira. Clodoaldo Silva sempre competiu na categoria S4, mas acabou passando por uma reclassificação, o que o levou para a classe S5, onde os nadadores batem as pernas durante toda a prova, alcançam a ondulação na piscina e conseguem a chamada virada olímpica, o que na categoria S4 não é possível.
Nessa entrevista, Clodoaldo Silva, revela o motivo que o fez se afastar de natação, o que o motivou a voltar às piscinas e quais são as suas expectativas para as próximas competições.
Bota para rodar: O que o motivou a voltar a competir?
'Em 2008 teve toda aquela polêmica da reclassificação em Pequim. No regulamento do Comitê Paraolímpico Internacional diz que aquele que tem mais de três classificações internacionais, não passa por mais nenhuma classificação. Então, fui à Pequim com esse pensamento e fui pego de surpresa. Tive todo aquele abatimento. Logo depois foi diagnosticado que eu tenho um grave problema nos discos intervertebrais da coluna, o que ocasionaria a minha aposentaria mais cedo. Com essa reclassificação, com esse problema diagnosticado e além do fato de que em 2009 não teria nenhuma competição importante, eu pensei que se tivesse que parar em um ano seria em 2009. E foi isso o que eu fiz. Até pensei realmente em parar de nadar. Nesse mesmo, ano eu vim para Niterói a convite de um amigo para conhecer a ANDEF, que eu até então não conhecia. Ele me mostrou toda a estrutura, me apresentou o Cristiano (Cristiano Cerqueira, técnico do núcleo de ciência e tecnologia paraolímpica da ANDEF e atual técnico de Clodoaldo Silva) que me falou de todo essa trabalho que eles desenvolvem, do núcleo paraolímpico, de tudo que poderia ser feito a longo prazo. Era essa a motivação que eu precisava para voltar a trabalhar'.
Bota para rodar: Qual é a importância desse tipo de treinamento específico a qual tanto você quanto os outros atletas paraolímpicos são submetidos?
'Eu já treinava muito. Mas não tinha um treino tão específico e especializado para a minha deficiência. Sempre treinava em um período, cerca de 4 a 5 horas, mas somente naquele período. Conflitava muito, já que eu fazia velocidade, fazia resistência tudo na mesma hora. Com o treino do núcleo paraolímpico nós treinamos pela manhã só velocidade. Na parte da tarde somente resistência ou vice e versa. Depois vamos para a academia, para trabalhar a flexibilidade e para a psicologia. É um treinamento em que hoje nós vemos até atletas Olímpicos alcançarem um bom resultado com esse trabalho. Então eu pensei, já não sou tão novo, tenho 31 anos, em Londres vou ter 33 anos e eu preciso de detalhes para melhorar centésimos ao longo dos anos. Esses detalhes são esses treinos específicos, esses detalhes do acompanhamento diário, da presença do fisioterapeuta, da psicóloga, para que em Londres eu possa chegar eu possa estar competindo em alto nível'.
Bota para rodar: Quais são os seus objetivos na Paraolimpíada de Londres em 2012?
'Quero finalizar com chave de ouro uma trajetória que começou em 1998 com muitas vitórias. Eu acredito que essa é a motivação que eu tenho também. Poder trabalhar bem aqui, trabalhar os detalhes, para que eu possa melhorar lá na frente'.
Bota para rodar: Qual é a sua expectativa para o Mundial de Eindhoven, na Holanda que acontecerá entre 15 e 21 de agosto?
'A minha expectativa é de poder brigar por medalhas. Não sei se de ouro, prata ou bronze, mas eu vou lutar pro medalhas. Será a minha primeira competição internacional depois de Pequim e é uma categoria nova. É um desafio novo. Eu não serei hipócrita. Estou empolgado para chegar na frente de atletas que tem uma deficiência muito menor que a minha. A grande diferença da classe S4 que era a que eu fui durante toda a minha vida para a S5, é que na classe S5 a maioria dos atletas são amputados e eles conseguem ter impulsão na saída de bloco. Durante toda a prova eles batem as pernas e tem ondulação e ainda tem a virada olímpica, algo que na S4 ninguém tem todas essas virtudes. Então eu acredito que é uma classe em que eu possa brigar por medalhas e com certeza vai ter um gostinho muito melhor poder chegar na frente desses atletas e saber que eu estou em uma categoria em que a deficiência é muito menor que a minha. Será um desafio a mais. Foi isso também que me motivou para poder voltar embora até hoje eu não tenha engolido essa história da reclassificação. Tem advogados meus analisando se é possível uma reversão. Mas eles fazem a parte deles fora da água e eu tenho que fazer a minha independente de S4 ou S5 eu vou treinar, vou nadar para alcançar os meus objetivos'.
Bota para rodar: Qual é o maior desafio que o portador de deficiência física enfrenta atualmente?
'Por eu ser o Clodoaldo da Silva, eu posso dizer que não sofro mais o preconceito que antes eu sofria. Mas o caso, é que existem muitos portadores de deficiência que não alcançaram o sucesso que eu alcancei e por isso são discriminados. Mas eu acredito que a maior dificuldade que o deficiente físico sofre nos dias de hoje, é a questão de acessibilidade. Apesar de ter melhorado ainda falta o respeito por parte dos demais sobre essa questão de acessos para que os deficientes possam transitar. Por exemplo, carros que não tem o adesivo de deficiente estacionam nas vagas selecionadas para portadores de deficiência. Falta respeito com os portadores de deficiência.
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